Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS CHACOALHAM O PLANETA

Fazia tempo que não acontecia de São Paulo ter temperatura na casa dos seis graus centígrados. 02 de Julho de 2021

Fazia tempo que não acontecia de São Paulo ter temperatura na casa dos seis graus centígrados. De outro lado, nos últimos milhares de anos nunca aconteceu de Vancouver ter temperatura de quarenta e sete graus centígrados.

A leitura dos dois dados mostra que as temperaturas estão atingindo extremos de calor e frio inimagináveis pouco tempo atrás. Mais do que isso, estão atingindo estes patamares onde não são esperadas. Se Cuiabá tivesse temperatura de quarenta e sete graus ninguém se assustaria, da mesma forma que seis graus em Vancouver seria algo corriqueiro, mera temperatura de outono. Mas o frio e o calor não estão seguindo a regra tradicional, ou pelo menos não estão respeitando a frequência do último milênio. Estão atacando fora do contexto e isso tem efeitos dramáticos para as regiões afetadas e para os seres humanos que habitam nelas. Dezenas de pessoas já morreram por causa do calor no Canadá, enquanto outras morreram por causa do frio no Brasil.

Não sei até que ponto o ser humano é responsável pelo fenômeno, mas se não é o único ator, contribuiu de forma efetiva para ele acontecer. As mudanças climáticas têm muito a ver com o que fizemos nos últimos cento e cinquenta anos. A destruição da camada de ozônio tem nosso dedo, principalmente pela emissão dos gases do efeito estufa.

No curto prazo, não tem o que fazer. Vamos passar por situações cada vez mais dramáticas, com resultados ruins para a vida em geral, mas especialmente para os humanos, que terão a saúde a e vida abaladas e seu patrimônio comprometido.

As ondas de calor e frio extremos em lugares inesperados é apenas a ponta do iceberg. Outros fenômenos ocorrem com regularidade cada vez mais assustadora e se materializam em incêndios gigantescos, que destroem todos os anos enormes áreas da Europa, Estados Unidos, Austrália e Brasil.

A seca não é mais um evento restrito a uma determinada área previsível e conhecida, como o semiárido nordestino. Por exemplo, ela tem sido recorrente no Rio Grande do Sul, tradicionalmente um estado com clima definido, regime de chuvas bem distribuídas e por isso propício para agricultura.

Como se não bastasse, os índices pluviométricos têm ficado abaixo da média histórica em vastas áreas do território nacional, com a crise hídrica se espalhando pelo sul e pelo sudeste, ameaçando o fornecimento de água e de energia elétrica.

Em 2020, os prejuízos decorrentes da seca ficaram na casa dos trinta bilhões de reais. Em 2021, este número deve ser maior. Este ano, a “safrinha”, de acordo com produtores rurais e seguradores, está severamente comprometida, com perdas de mais de setenta por cento atingindo várias propriedades. O impacto no faturamento do agronegócio será pesado, mas irá além do prejuízo dos agricultores, tendo efeito também no custo de vida e na inflação. Com a “safrinha” comprometida, o preço dos alimentos tende a subir, direta e indiretamente puxado pela lei da oferta e da procura.

As perdas vão além. A energia elétrica já teve os preços reajustados para compensar a entrada em funcionamento das usinas térmicas, muito mais caras e poluidoras do que as hidroelétricas. Esse aumento se estenderá por todo o país, impactando a economia de forma geral. E ele pode ser maior do que o reajuste já dado, ou seja, a inflação pode ser maior do que a esperada e a retomada do crescimento pode ficar comprometida.

Para o setor de seguros é um cenário ruim. A sinistralidade deve aumentar, as tentativas de fraude devem aumentar e, com isso, o valor das indenizações também deve crescer. De outro lado, se houver o comprometimento da retomada da economia, haverá uma redução do faturamento e a soma dos dois quadros faz o resultado da atividade piorar.

Ainda é cedo para saber o que vai acontecer no Brasil e no mundo, mas o aumento da frequência e da severidade dos eventos de origem climática já é uma realidade incontestável e seus impactos custam cada vez mais caro, com a agravante de que o país e o mundo têm muito pouco seguro para fazer frente a eles.