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Abalo na saúde mental é tema urgente nas empresas

Valor Econômico - 28 de Abril de 2021

A pandemia prejudicou a saúde mental de 73,8% dos mais de 500 profissionais entrevistados em uma pesquisa da Fundação Dom Cabral (FDC) e Talenses Group, registra o Valor Econômico. Entre os pesquisados, 53% conhecem alguém que tenha sofrido burnout - um estado de estresse crônico causado pelo trabalho que leva à exaustão física e emocional. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo. “Com esse cenário, entendemos a necessidade urgente de discutirmos o papel das organizações sobre o tema e as ações necessárias em prol da saúde mental dos colaboradores”, diz Carlo Pereira, diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU.

Para Paul Ferreira, professor de gestão estratégica e diretor do Centro de Liderança da FDC, a saúde mental nas empresas foi agravada com a fadiga extrema provocada pela pandemia. Ferreira, que coordenou a pesquisa citada no começo desta reportagem, comenta sobre um estudo de 2019 da Internacional Stress Management Association com nove países que mostrou o Brasil no segundo lugar em nível de estresse no ambiente de trabalho, ficando atrás somente do Japão.

Na visão de Ferreira, quatro principais fatores levam a esse cenário: excesso de trabalho, subutilização de propósito, liderança autoritária e ambiente e contexto de trabalho inadequados. “Outro ponto de tensão que pode levar ao burnout relaciona-se com a questão infindável sobre como equilibrar trabalho e vida pessoal e seus profundos impactos no bem-estar.”

Depressão e ansiedade custam US$ 1 trilhão à economia global por ano, segundo a OMS, ocasionando perda de produtividade e competitividade para as empresas. “As lideranças executivas começaram a entender a importância de cuidar de pessoas para manter a sustentabilidade de seus negócios, integrando o tema saúde mental à pauta da gestão estratégica das empresas”, diz o diretor da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. “A pandemia deixou clara a necessidade de as empresas repensarem seus programas de saúde mental e bem-estar”, diz. “Mesmo em empresas com iniciativas robustas e estruturadas, ouvimos relatos de aumento significativo no estresse geral dos times.”

Para Lisiane Bizarro, da Sociedade Brasileira de Psicologia, as mudanças no trabalho, na sociedade, na economia e no meio ambiente que vinham sendo sinalizadas há alguns anos foram precipitadas no contexto da pandemia. “O tipo de trabalho, suas condições e a conciliação com as mudanças na vida pessoal trouxeram muitos desafios”, afirma. “Isso sensibilizou as pessoas para olharem para quem está presente em todas essas mudanças e nas consequências que elas terão: o ser humano.”

Para ela, a organização do trabalho, condições inadequadas, o assédio moral, o burnout e o sentido do trabalho são fatores que influenciam a saúde física e mental dos trabalhadores. Segundo ela, a prevenção dos fatores de risco psicossociais no trabalho obriga a um envolvimento ativo e dinâmico da organização e dos trabalhadores

O médico Leandro Pereira Garcia, gerente médico sênior de gestão de saúde populacional na Amil/UHG, observa que, para as empresas, o impacto da deterioração da condição mental da população se dá em várias frentes, como o aumento dos custos diretos em saúde e a queda na produtividade em função do absenteísmo e do presenteísmo (quando o colaborador está na empresa mas não consegue desenvolver o trabalho de forma adequada).

“Estima-se que, nesta década, depressão será a principal causa de absenteísmo”, diz Garcia. “A queda na produtividade reflete em um pior desempenho econômico, que realimenta o ciclo. Assim, falar de saúde mental nas empresas hoje é urgente, por uma questão humanitária, por uma questão competitiva e para auxiliar na recuperação econômica do mercado em que elas mesmas estão inseridas.