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Artigo: Cibersegurança e as implicações para os investimentos

Valor Econômico - 05 de Março de 2021

Por Esteban Polidura, diretor de assessoria para as Américas do Banco Julius Baer, no Valor Econômico

O hacking malicioso continua sendo uma ameaça constante para as Américas. Ainda no início do ano, os EUA emitiram um aviso emergencial após descobrirem que os hackers sequestraram o software utilizado por várias agências federais para obter entrada nos seus sistemas seguros de TI. O risco não é apenas para o governo, mas especialmente para as empresas.

Segundo a CNBC, os ciberataques custam em média US$ 200 mil a empresas de todos os tamanhos, sendo 43% deles destinados a pequenas empresas. Para além do impacto financeiro imediato do vazamento de informações, existem outros custos. As consequências ocultas apontadas pela Deloitte incluem aumentos de prêmios dos seguros, elevado custo para aumentar dívida, perda de valor das relações com clientes e desvalorização do nome comercial, entre outros.

Também proliferaram na América Latina os ataques de “ransomware” e “malware”. A Fortinet estima que só em 2019, a região sofreu mais de 85 bilhões de tentativas de ataque. Dados do Statista mostram que o Brasil teve a maior porcentagem, em 2020, de servidores atacados por ransomware na América Latina, com quase 47% de infectados. Há três razões fundamentais para a América Latina estar sendo alvo de ataques.

Em primeiro lugar, assistiu-se a um grande aumento da penetração da internet nos últimos anos, com 67% das pessoas tendo acesso à internet em 2020 contra 36% em 2011. Em segundo lugar, a tecnologia financeira (fintech) está sendo mais abraçada. O BIS salienta que, no período de 2017 a 2019, o investimento de fintechs na região aumentou mais de 100%, com o Brasil dominando o panorama com grandes negócios em bancos digitais e empresas de serviços de pagamento. E em terceiro ugar, os investimentos em segurança cibernética continuam a ser insuficientes e os mecanismos de defesa coordenados são escassos.

O mercado de segurança cibernética da região foi avaliado em US$ 13 bilhões em 2019. O Brasil tem sido um viveiro de cibercrimes nos últimos anos.

Há alguns meses, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi atingido por um grande ataque cibernético que paralisou as suas operações durante vários dias. Esse foi o ataque cibernético mais grave já orquestrado contra uma instituição do setor público no país. O grupo Embraer foi também alvo de um ciberataque que teve impacto nas operações da empresa. Dois anos antes, descobriu-se que um grande botnet estava desviando o tráfego destinado aos bancos brasileiros.

De acordo com a Kaspersky, 2021 será mais um ano desafiador para a América Latina. Haverá aumento e diversificação dos ataques dirigidos aos sistemas financeiros por grupos cibercriminosos locais. Alguns sistemas operativos e plataformas de comunicação serão cada vez mais utilizados para a realização de ataques. E técnicas sofisticadas relacionadas com inteligência artificial serão utilizadas para orquestrar campanhas de desinformação ou propagar código malicioso.

Os riscos só aumentarão à medida que os malwares relacionados à mineração de criptomoedas apresentarem aos cibercriminosos uma alternativa ao resgate. A América Latina é particularmente propensa a ciberataques relacionados com moedas criptográficas, uma vez que a depreciação das moedas e ambientes políticos incertos levam investidores a procurar refúgio em criptomoedas.

Dados da Chainalysis 2020 Geography of Cryptocurrency Report apontam para que as transações no Brasil tenham atingido quase US$ 10 bilhões no ano passado, com o bitcoin representando mais de 80% dos volumes negociados.