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Startups tentam popularizar atenção médica

O Estado de S. Paulo - 12 de Fevereiro de 2020

O Estadão conta que, nascido no interior da Paraíba, Matheus Silva sempre tinha problemas na hora de ir ao médico. Precisava se deslocar para outra cidade, numa viagem que durava horas, e esperar um tempo ainda maior na fila. Assim, era quase impossível manter uma rotina de exames e fazer valer o lema de 'melhor prevenir do que remediar'. É uma dificuldade que atinge milhões de brasileiros. Após fazer faculdade nos EUA e passar dois anos trabalhando na consultoria McKinsey, Silva decidiu pôr a mão na massa e tentar resolver esse problema.

Foi assim que nasceu a Cuidas, startup que oferece um serviço corporativo de medicina preventiva. Por meio de sua plataforma, a empresa conecta médicos da família com funcionários das empresas clientes, levando o atendimento primário para dentro da rotina de trabalho das pessoas. Se o empregado sentir uma dor ou uma gripe, pode requisitar a presença do médico no escritório. 'Nosso objetivo é fazer o brasileiro dar o primeiro passo pela comodidade. É melhor que ir ao pronto-socorro', afirma Silva.

Com 35 funcionários e 30 médicos parceiros, a Cuidas cobra uma mensalidade das empresas - o valor varia de acordo com o número de funcionários, mas parte de R$ 70. 'O brasileiro tem a cultura de ir sempre na emergência e ter um 'tratamento Frankenstein. É um médico pro coração, outro pro pulmão, mas não somos um saco de órgãos', diz Silva, que já recebeu uma rodada de investimentos liderada pelos fundos Kaszek, Canary e Innova Capital - este último, ligado a Jorge Paulo Lemann.

Mercado. A área de atuação da Cuidas é conhecida como medicina primária ou atenção básica. A ideia é simples: acompanhar os pacientes antes que eles desenvolvam problemas sérios e afoguem as filas dos hospitais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% das doenças podem ser tratadas apenas com uma única e rápida visita ao médico. Caso o paciente tenha uma condição mais grave, basta encaminhá-lo ao especialista.

'As empresas de prevenção são as healthtechs (startups de saúde) com maior chance de sucesso', afirma Júnior Borneli, fundador da empresa de inovação StartSe. 'Afinal, existem mais pessoas que querem prevenir diabetes do que as que possuem diabetes de fato. As startups de prevenção trazem menor necessidade de aportes e atingem muita gente'.

A Cuidas não está sozinha nessa ideia. A Amparo Saúde, por exemplo, busca dar novo fôlego à figura do médico da família. Fundada em 2015, a startup atua com parcerias com empresas e planos de saúde como Amil e SulAmérica. A ideia já atraiu investidores como José Luiz Setúbal, médico do hospital infantil Sabará e um dos acionistas do grupo Itaú Unibanco.

'O médico da família é um maestro: ele conhece o paciente e sabe como cuidar dele, encaminhando para um especialista só quando necessário', explica Gentil Jorge Alves, diretor de relações com o mercado da Amparo. Hoje, a startup atende cerca de 30 mil vidas e conta com cinco unidades no estado de São Paulo e uma em Brasília, onde iniciou o seu plano de expansão nacional no final de 2019. 'Nas clínicas, são feitas consultas e também pequenos procedimentos, como suturas, lavagem de ouvido e ultrassonografias', diz Alves.

Atenção aos dados. Outras startups, enquanto isso, enxergam nos dados dos pacientes uma forma de promover a saúde primária. Com cerca de 50 funcionários e mais de 1 milhão de vidas atendidas, a campineira HealthBit faz medicina preventiva sem precisar de médicos, clínicas ou estetoscópio. Para gerar diagnósticos, a empresa analisa dados fornecidos pelos clientes, bem como informações de pesquisas e de planos de saúde.

A partir de uma montanha de informações, a empresa consegue perceber a frequência de determinadas doenças, tipos de pessoas mais vulneráveis a certos problemas e as especialidades mais atendidas pelos hospitais. Ao cruzar isso com a base de funcionários de um cliente, é capaz de antecipar diversas questões de saúde - e economizar. Um dos 140 clientes da empresa, por exemplo, gastava cerca de R$ 11 milhões por ano com casos de funcionárias grávidas que tinham problemas de saúde. Os valores caíram para R$ 3 milhões por ano depois que a HealthBit percebeu que parte das empregadas não faziam exames pré-natais por precisar pagar parte da consulta.

'Os custos com saúde crescem de maneira exponencial no mundo todo. Percebemos que era preciso melhorar a eficiência do sistema', diz Murilo Wadt, cofundador da HealthBit.

Na farmácia. Quem também está tentando recriar a experiência de saúde nos dias de hoje é a PontoCare, que instala salas especiais para atendimento primário dentro de farmácias. 'A farmácia é um estabelecimento de saúde e o farmacêutico está habilitado para orientar pacientes no primeiro momento', diz Guilherme Torre, fundador da startup. 'Caso seja um caso simples, o farmacêutico pode indicar medicações e até pedir o retorno.'

Com serviços a partir de R$ 1, como aferição da pressão arterial e medição de temperatura, a PontoCare hoje tem 9 redes de farmácia franqueadas e já realizou cerca de 40 mil atendimentos no Rio de Janeiro e no Amapá. A promessa é de expansão para outras regiões em 2020, com 6 unidades já em implementação. 'Não importa o formato, a saúde primária é essencial para aumentar a eficiência do setor médico', diz Torre. 'Precisamos formar uma nova cultura de saúde que não seja centrada no hospital.'