Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

SEGUROS E JUROS ALTOS

Ninguém gosta de juros altos. Invariavelmente, os juros são altos quando é necessário conter algum evento negativo que atinge a economia. 25 de Março de 2022

Ninguém gosta de juros altos. Invariavelmente, os juros são altos quando é necessário conter algum evento negativo que atinge a economia. O mais comum é a inflação alta, fenômeno que o mundo está vivendo e que o Brasil vive com mais intensidade ainda. Outras razões para elevar os juros é atrair novos investimentos ou evitar a fuga de divisas fortes do país.

A inflação brasileira está acima de 10% e os juros estão em quase 12%, patamar altíssimo e que ainda pode subir mais. As razões são conhecidas e refletem a aplicação de medidas ortodoxas para tentar conter o processo inflacionário. O problema é que a inflação não está subindo apenas por causa de movimentos controláveis pelo país. Grande parte das forças que elevam seu patamar vem de fora, principalmente da alta do petróleo, decorrente da invasão da Ucrânia.

Pode-se dizer que o Brasil não atentou para as consequências de deixar o Real se desvalorizar da forma como aconteceu nos últimos anos e que essa desvalorização está cobrando seu preço. É verdade, mas mais grave do que isso, ou melhor, mais abrangente, é a falta de uma política econômica consistente e de acordo com as boas práticas administrativas, começando pela realização das reformas estruturais que a nação necessita.

Mas o tema não é a razão da inflação e sim, sua aceitação como um dado concreto que afeta a economia nacional, com reflexos nos mais variados campos, do político ao social, e a análise de suas consequências, especialmente na atividade seguradora.

Ao contrário do que acontece com boa parte das atividades econômicas que têm na inflação um inimigo capaz de causar danos de monta, para o setor de seguros a inflação não é tão mal vinda.

Ninguém discute que o processo inflacionário tem efeitos negativos na economia como um todo e que isso reduz a contratação de seguros porque o empobrecimento de empresas e pessoas leva à priorização da destinação dos recursos. Da mesma forma que quem ganha um salário-mínimo não vai contratar seguro porque precisa comer, uma empresa empobrecida pelo processo inflacionário não vai contratar seguros porque necessita adquirir matérias primas.

De outro lado, a inflação alta leva a uma política de juros altos, como a que estamos vivendo agora. O patamar da SELIC é o mais elevado dos últimos anos e a tendência é que ela suba ainda mais. E essa política tem impacto positivo na última linha do balanço das seguradoras.  As seguradoras aplicam os prêmios recebidos, ou o que elas faturam, no mercado financeiro. Quanto mais alto for o juro, melhor o resultado dessas aplicações e, consequentemente, melhor o resultado da seguradora. Como ela acrescenta o resultado das aplicações financeiras aos seus resultados industriais, o seu resultado operacional melhora, levando uma eventual operação de seguro diretamente negativa a ter um resultado final positivo.

Como em 2021 algumas seguradoras tiveram balanços ruins, os juros altos, com certeza, não são malvistos por seus executivos.