Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

O SEGURO E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Nos últimos cinquenta anos, os eventos de origem climática mataram dois milhões de pessoas e custaram três trilhões e seiscentos bilhões de dólares. 13 de Novembro de 2020

Nos últimos cinquenta anos, os eventos de origem climática mataram dois milhões de pessoas e custaram três trilhões e seiscentos bilhões de dólares. São dados altamente preocupantes e como a fonte é a Organização Meteorológica Mundial, que tem credibilidade, seria conveniente os organismos internacionais e os países levarem o quadro a sério e adotarem as precauções e medidas necessárias para não permitir que os números se tornem ainda piores.

Ao que tudo indica, neste momento, os avanços nas políticas de combate ao aquecimento global e, consequentemente, ao aumento dos eventos de origem climática estão seriamente ameaçados. Apesar de uma maior consciência social e participação das populações dos países ricos na discussão, as nações mais poluidoras e responsáveis pela emissão dos gases que geram o aquecimento não estão se esforçando minimamente para reduzir o ritmo do processo.

A notícia é muito ruim porque as mortes e os custos decorrentes dos eventos de origem climática não aconteceram de forma uniforme ao longo dos anos. Ao contrário, a velocidade tem aumentado com o passar do tempo, sendo as perdas mais recentes muito maiores do que as acontecidas nos primeiros anos do levantamento.

O que se observa ao redor do planeta é o agravamento da frequência e violência dos eventos. Os furacões estão mais fortes; as tempestades tropicais em vários lugares estão se transformando em furacões; as regiões secas estão se espalhando; as inundações estão ganhando mais corpo e atingindo áreas onde eram fenômenos raros; regiões em que não se tinha notícia de tornados, hoje são atingidas por eles; explosões meteorológicas destroem áreas antes a salvo de seus efeitos; o derretimento do gelo se acentua rapidamente em todas as partes; etc.

Quem sabe o exemplo mais visível sejam os violentos incêndios que surgem nas mais variadas zonas do globo, da Austrália à Europa, da Ásia às Américas, sem esquecer a África. Não existe mais nenhum continente a salvo do fogo de grandes proporções, como os incêndios que grassam pelo Brasil, que destruíram enormes áreas da costa oeste norte-americana, que queimaram a Austrália e que nos meses de verão atingem com mais força o sul da Europa.

Ainda que esses incêndios não tenham um custo alto em vidas humanas, eles devastam a fauna e a flora nativa, além de causarem perdas de bilhões de dólares em áreas agrícolas e urbanas destruídas.

Se todas as nações concordassem com a necessidade de interromper imediatamente todas a fontes de poluição e aquecimento global – e realmente o fizessem, o que é impossível -, o processo de destruição consequente dos eventos de origem climática não se modificaria do dia para a noite e os custos de seus efeitos continuariam subindo ano a ano, como vem acontecendo no último meio século, até que as medidas implementadas começassem a surtir efeito.

É ação de longo prazo. As mudanças já acontecidas impactarão o cenário pelas próximas décadas. Quem sabe, depois de meio século, se estabilizarão e, eventualmente, mais alguns anos depois, começarão a regredir. Mas isto é futurologia.

O setor de seguros acompanha o quadro de perto e financia alguns dos mais importantes estudos sobre o tema. Nem poderia ser diferente. Diariamente, o cenário se agrava e as indenizações aumentam.

Além disso, as seguradoras e resseguradoras sabem que não têm capacidade para fazer frente ao tamanho das perdas, que se tornam cada vez maiores e mais frequentes. E que, sem a parceria com o poder público, não há como assumir os prejuízos, o que inviabilizaria a aceitação da maioria dos riscos, aliás, como ocorre hoje.

O grosso dos riscos segurados está nos países desenvolvidos. Isto torna o quadro mais desigual, já que os ricos são parcialmente reembolsados, enquanto os pobres devem assumir integralmente as perdas, ficando cada vez mais pobres.

A pergunta é: como oferecer novas coberturas? Tanto ricos como pobres necessitam seguros desenhados para a nova realidade. E isto é mais complexo do que parece, até porque o cenário deve se agravar.