Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

SEGUROS SEM FUTUROLOGIA

O ano de 2020 está se mostrando muito mais complicado e negando o que estava previsto em janeiro. 16 de Outubro de 2020

O ano de 2020 está se mostrando muito mais complicado e negando o que estava previsto em janeiro. A pandemia fez estragos em todas as nações, em todos os blocos de comércio e na globalização como um todo. O que deveria ser, simplesmente não foi. E o avesso ocupou espaços inacreditáveis, não necessariamente com resultados negativos.

O atrelamento automático e submisso do Brasil aos Estados Unidos deveria gerar no mínimo um acréscimo importante na nossa balança econômica. Sem isso, não tem sentido abrir mão de uma longa história de independência diplomática, baseada na vontade das nações e na não intromissão em assuntos que não nos dizem respeito. Todavia, foi o que aconteceu e o resultado da aventura foi o mais pífio dos últimos onze anos de relações bilaterais.

De outro lado, as relações com a China, que tinham tudo para se deteriorarem em função de ações pouco inteligentes de autoridades brasileiras, estão bombando e as importações da potência asiática são um guarda-chuva seguro para os números nacionais, seriamente abalados pelo coronavírus e suas consequências.

As duas faces da mesma moeda mostram o contrário do que seria esperado. A alardeada amizade presidencial com a grande potência mundial resultou em provável déficit recorde nas contas entre os dois países, enquanto as malcriações com a China não interferiram nos negócios entre as duas nações, com o Brasil exportando muito mais do que o cenário mais otimista poderia prever, ao ponto de o mercado interno estar desabastecido de produtos que fazem parte da rotina alimentar do brasileiro.

Recente estudo publicado pelo Itaú Unibanco dá conta de que, em quatorze setores econômicos analisados, apenas quatro apresentam recuperação significativa. Os demais ou estão andando de lado ou simplesmente continuam encalacrados na crise e sem sinais mais fortes de recuperação.

Importante salientar que o setor mais dinâmico é justamente o agronegócio e sua pujança é puxada pelas importações chinesas. Quer dizer, não fosse a China uma nação extremamente pragmática, o Brasil poderia estar numa situação mais delicada e metido numa crise mais profunda.

Graças a este desempenho, as avaliações sobre a recessão nacional foram revistas e o novo cenário, ainda que bastante negativo, é mais positivo do que o anterior, com as projeções falando em menos 5,8% em vez dos menos 10% anteriormente previstos. 

Outra incógnita é o que vai acontecer quando o auxílio emergencial deixar de ser pago. Algumas previsões indicam que, sem ele, o país não aguenta manter a recuperação em curso, fruto do consumo das famílias e das exportações do agronegócio e de minérios.

É certo que alguns setores importantes para o faturamento da atividade seguradora terão desempenho extremamente fraco, como é o caso da indústria automotiva, com uma queda estimada em 35% em relação à produção do ano passado. Também não é de se esperar um desempenho forte de setores tradicionais, como a indústria têxtil.

Este quadro tem impacto direto no desemprego, que permanece em patamares elevadíssimos, mesmo com a pequena recuperação a que vamos assistindo. A situação é dramática, a miséria cresce e alguns especialistas estão seriamente preocupados com o que pode acontecer no ano que vem.

Como planejar as ações estratégicas de uma companhia de seguros dentro deste cenário? A atuação dos corretores de seguros é mais direta e mais próxima do cidadão, então é mais fácil corrigir rumos e enveredar por novos caminhos. Mas como dar esta agilidade para uma seguradora, que depende do desempenho de outros setores econômicos para colocar produtos com maturação relativamente lenta, desenvolvidos num momento em que o avesso do avesso ocupa o espaço do que seria lógico?

O que vem depois? Esta é a pergunta de um milhão de dólares. Toda crise gera oportunidades, mas como avaliar corretamente o que pode acontecer no futuro? Como prever o que vai acontecer no campo político? Nas relações internacionais? Na segurança jurídica? Futurologia não é resposta. Mais do que nunca, é hora de calma, cautela, sangue frio e muita, mas muita, análise. Um passo em falso pode ser fatal e neste momento as trilhas estão encobertas.