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Artigo: "O exagero faz mal à saúde"

"Os gastos desnecessários na saúde atingem números alarmantes"

Correio Braziliense - 16 de Abril de 2019

Claudio Lottenberg, presidente do UnitedHealth Group Brasil, no Correio Braziliense

O uso excessivo e inapropriado de cuidados médicos pode causar sérios danos a pacientes. Um bom exemplo é a questão da proliferação de supermicróbios, que se desenvolvem pela utilização inadequada de antibióticos. Segundo estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o número de mortos em todo o mundo por supermicróbios pode chegar a 2,4 milhões entre 2015 e 2050.

Cenários como esse reforçam a necessidade de buscar, incessantemente, mais eficiência e menos desperdício nos serviços de saúde. Coibir cuidados ineficazes e desperdícios de recursos e de tempo e, por outro lado, incentivar o atendimento coordenado e a promoção de mudanças de hábitos que previnam doenças, em especial as crônicas, são caminhos que devem ser seguidos para que a população em geral possa viver de forma mais saudável e o sistema, público e privado, funcione melhor para todos.

Esse trabalho de conscientização contra o uso abusivo de medicamentos e de realização de exames, hoje conhecido como overuse, tem ganho muita força nos últimos anos por intermédio de grupos e projetos que avaliam as decisões clínicas para que elas considerem também os riscos e os custos associados, além do potencial benefício à saúde do paciente. Como exemplos, existem as iniciativas americanas Providers For Responsible Ordering (Provedores para Pedidos Responsáveis), cuja missão é promover cuidados de alto valor de que os pacientes realmente precisam e nenhum que não necessitam, e Caring Wisely (Cuidando Sabiamente), que incentiva inovações que melhoram a condição do doente e reduzem os custos com assistência.

Buscam, na prática, entregar o que é mais adequado e necessário para o paciente. Ou seja, o cuidado certo para ele, de forma integral, com uma atenção médica próxima e coordenada, para que o doente não se perca pelo sistema de saúde quando busca o que é melhor para ele. E também para que não contribua para a insustentabilidade do sistema, que tem o overuse e o envelhecimento da população como dois dos seus pilares.

No Brasil, os gastos desnecessários na saúde atingem números alarmantes. Segundo análise feita pelo Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS), 19,1% das despesas assistenciais no país, em 2017, foram frutos de desperdícios e fraudes, que totalizam R$ 27,78 bilhões. Verba altíssima que, se aplicada de forma correta, melhoraria muito a qualidade dos atendimentos e diminuiria os custos médico-hospitalares.

E é fundamental frisar que esse mau uso no setor privado traz graves reflexos no atendimento público também. Custos abusivos atingem toda a sociedade. Isso porque o sistema de saúde, estatal ou suplementar, é mutualista, com uma pessoa contribuindo para o atendimento de outra, e ele depende da população economicamente ativa, que tem diminuído pela queda de fecundidade e pela crise dos últimos anos, que encolheu o mercado de trabalho. Felizmente, para 2019, estima-se um crescimento do PIB de 2%, que deve se refletir em aumento do número de vidas assistidas pelo setor privado.

Também é importante destacar que o aumento da população atendida pela saúde suplementar desafoga o Sistema Único de Saúde (SUS) e contribui para melhor serviço entregue por este, que tem verbas limitadas por despesas, como salários, aposentadorias e benefícios de prestação continuada, que consomem perto de 65% do Orçamento da União.

Zerar um valor tão alto de desperdícios não será tarefa fácil. Mas todos podem colaborar no enfrentamento desse grave problema. Os planos de saúde, por exemplo, precisam aumentar cada vez mais o uso de modelos de remuneração com indicadores de resultados que avaliem o desfecho clínico para o paciente em detrimento do fee for service (pagamento por serviço), que ainda prevalece no mercado brasileiro e valoriza mais a quantidade do que a qualidade dos procedimentos médicos. Os prestadores de serviços e os hospitais, em particular, devem dar maior transparência a dados que não são só de produtividade, mas também de desfechos, performances e até inconformidades.

Em relação aos profissionais de saúde, a valorização dos generalistas, como os médicos de família, que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) podem resolver 85% dos problemas dos pacientes, desafogará os especialistas para que se dediquem a casos de alta complexidade. E até mesmo os pacientes podem ajudar, com atitudes simples, como guardar seus exames mais recentes (fisicamente ou digitalmente) e levá-los em consultas posteriores para evitar repetições desnecessárias.