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"Reajustes elevados ficaram para trás", diz diretor da Bradesco Saúde

"Hoje, há um ritmo menor de crescimento dos custos. Haverá uma reacomodação do uso e da utilização dos recursos", diz Manoel Peres.

Correio Braziliense - 25 de Março de 2019

O executivo Manoel Peres, diretor-presidente da Bradesco Saúde, maior operadora de planos de saúde do país, com 3,6 milhões de clientes, atravessou períodos desafiadores nos últimos três anos. De 2016 a 2018, a empresa perdeu nada menos do que 700 mil clientes, mais do que toda a população de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, ou quase o dobro do número de habitantes de Ceilândia, em Brasília. Apesar da forte retração, a companhia conseguiu crescer. No ano passado, faturou mais de R$ 23 bilhões, aumento de 6% frente a 2017. Segundo Peres, a expansão foi resultado de mudança no modelo de operação da empresa, que ele comenta nesta entrevista ao Correio Braziliense.

O setor de saúde privada foi um dos que mais encolheram com a crise da economia e o desemprego dos últimos anos. Como a empresa se comportou nesse período?

Os três últimos anos, de 2016 a 2018, foram muito difíceis. O ano de 2017 foi o mais difícil desde 2004. O Brasil perdeu 3 milhões de segurados. A Bradesco Saúde perdeu cerca de 700 mil clientes nos últimos três anos. Não é pouca coisa. Todas as grandes operadoras perderam muitos segurados. Obviamente, com a crise e a recessão, todas as empresas, que são o foco de nossas atividades e atuação, tiveram seus orçamentos revistos. Muitas delas tentaram manter ou reduzir custos com despesas médicas de seus funcionários; mas, mesmo com esse cenário desafiador, conseguimos manter nosso crescimento.

Como foi possível crescer com a economia em crise e o encolhimento do mercado de saúde?

Fizemos uma série de ajustes em todo o nosso modelo de operação. Mantivemos os nossos custos de administração menores do que eram, mas o ponto principal, sem dúvida, foi a questão da reformulação do modelo de remuneração da rede referenciada. Eu acho que esse foi o principal fator que contribuiu para que a gente conseguisse manter a saúde financeira e os resultados. Fechamos 2018 com receita de prêmios superior a R$ 22,3 bilhões, crescimento da ordem de pouco mais de 6%.

O que foi feito na prática?

Passamos a remunerar os prestadores por meio de um modelo que chamamos procedimento padronizado. Para explicar: trata-se de todos os procedimentos que têm elevada previsibilidade de desfechos clínicos, como hérnias, partos e outros procedimentos costumeiros. Eles têm a tendência de um desfecho muito previsível. Então, fica mais fácil para o hospital, para os prestadores de serviços, estipular valor de acordo com a complexidade do caso. Na prática, é definir valor fixo, em vez do antigo modelo de custos abertos, em que cada agulha, gaze, seringa ou comprimido que era usado entrava na conta. Dessa forma, conseguimos ter mais previsibilidade de custos. Isso deu também mais segurança para os clientes empresariais, algo que ajudou a manter o custo da assistência mais estável.

Só definir preço fixo de procedimentos resolveu o problema?

Esse foi o principal fator, porque aí não há oscilações de custos de materiais, de atendimento de pronto-socorro, de medicamentos. Essa previsibilidade foi o que nos ajudou.

Esse modelo de operação é uma saída para que os planos de saúde parem de reajustar seus preços sempre muito acima da inflação?

A assistência à saúde, infelizmente, no mundo todo tem a tendência de evolução de custo acima da inflação média. Isso ocorre por vários fatores. Sem dúvida nenhuma, em um cenário de crise como a que atravessamos, os reajustes dos custos de assistência se elevam em patamares acima da inflação, e trazem um grande desafio embutido para todos nós. Mas, de toda a forma, o Brasil se saiu bem em 2018 nessa questão.

Por quê?

Posso dizer que foi um dos melhores períodos pra nós, do ponto de vista de resultado final, ainda que com a perda de clientes, que todo o setor experimentou. Conseguimos manter os nossos clientes corporativos, atendê-los dentro das necessidades, repassando o menor custo possível, e revendo nossos custos, renegociando com a rede de credenciados uma condição que mantivesse o custo assistencial num patamar aceitável para a maioria dos nossos clientes. Apesar dos desafios, a gente conseguiu se sair bem em 2018.

A expectativa positiva é a mesma para este ano?

Temos a expectativa de que, em 2019, a vida melhore um pouco com a economia se movimentando, com crescimento do PIB e o retorno da renda e do emprego.

É de conhecimento público que o setor de saúde vive um problema sério que é a fraude. Isso é um problema para a Bradesco Saúde?

Com certeza é um problema. Somos muito atacados por fraudes em reembolsos, principalmente. Infelizmente, como nós somos uma seguradora e temos uma forma diferente das medicinas de grupo, temos um sistema aberto de atenção. O segurado pode optar e tem a liberdade de escolher onde ele vai e apresentar recibos. Por isso, há muita fraude de reembolso, não por parte do segurado necessariamente, mas também de prestadores que não integram a rede credenciada.

Como isso ocorre?

Eles estimulam ou ensejam ao segurado uma condição fraudulenta e, pior de tudo, se utilizam de um instrumento da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), chamado de NIP (Notificação de Investigação Preliminar), como um artifício de pressão contra nós. É como se fosse uma reclamação à agência reguladora, fazendo com que as operadoras tenham que, forçosamente, reembolsar recibos falsos, sob risco de sermos penalizados.

Os planos de saúde já alertaram a ANS sobre essa situação?

Sim. Felizmente, as agências têm se dado conta de que esse instrumento de proteção ao segurado tem servido para fraudes. A ANS tem se mostrado sensível a reavaliar essa posição.

A que cifras chegam as perdas da Bradesco Saúde com fraudes?

É difícil fazer uma estimativa. Pagamos cerca de R$ 19,5 bilhões em despesas médicas e hospitalares no ano passado. Desse total, entre 8% a 10%, quase R$ 2 bilhões, foram reembolsos. A gente estima que o volume de fraude nesses cerca de R$ 2 bilhões seja número relevante, mas não é algo que podemos cravar. Temos conseguido detectar volume expressivo de fraudes, mas não dá para estimar um percentual.

Como se identifica a fraude?

As fraudes têm uma natureza muito criativa, mas nem tudo é recibo falso. O uso inadequado também gera grandes perdas. Não dá para dizer exatamente que é fraude, pode ser também abuso. Há um limite muito tênue, no caso do atendimento médico, entre fraude e abuso.

Abusos verificados por parte dos hospitais e dos médicos?

O uso inadequado dos serviços de saúde, com excesso de solicitações, que não são necessárias para determinado procedimento, é um abuso. Temos recebido solicitações de 100 a 150 exames de um único paciente, de uma só vez. Temos de convir que, para fazer um diagnóstico ou uma avaliação de um paciente, não é necessária uma centena de exames. Do ponto de vista médico, do ponto de vista técnico, não faz sentido dosar tanta coisa assim num paciente. Há casos de pedidos de 10 tubos de sangue para fazer dosagem de todo tipo, de toda natureza, sendo que o paciente, às vezes, nem tem queixa que resulte nessa necessidade.

As fraudes e os abusos são argumentos para justificar os reajustes dos planos de saúde?

Acho que, em fraudes, nem é tanto. Claro que é importante a questão da ação pedagógica sobre os prestadores de serviço, mostrando que os recursos são finitos. Mas, acima de tudo, temos que investir em ações pedagógicas sobre o segurado, no sentido de que a gente está à disposição para auxiliá-los a navegar no sistema de saúde e auxiliá-los na gestão da sua saúde.

Quem deveria ter a responsabilidade de transmitir?

As empresas têm feito muito esse papel. Temos auxiliado muito no sentido de orientar as pessoas a usarem adequadamente. Os produtos que têm coparticipação exercem papel fundamental, porque a pessoa vê, recebe a demonstração daquilo que ela usou, questiona, e verifica aquilo que foi pago. Sem dúvida, os produtos com coparticipação têm auxiliado muito na conscientização das pessoas para o uso adequado do benefício. Por outro lado, há o papel de orientação das pessoas com relação à própria saúde, da responsabilidade individual com os hábitos de vida, alimentação e atividade física.

Isso já está mudando...

A indústria alimentícia está melhorando seus processos, no sentido de fazer produtos com menos sal, menos gordura e menos açúcar. Tudo isso contribui. São fatores que têm a ver com a ação pedagógica. Nesse sentido, temos uma área na companhia que vale a pena conhecer, chamada Juntos pela Saúde. São todas as medidas voltadas justamente para essas ações junto aos segurados. Isso inclui vacinação também. Depende de nós motivar as pessoas a se vacinarem contra febre amarela, gripe, meningite e tantas outras situações.

Como será o setor de seguro-saúde privado no futuro próximo? Com ritmo de reajuste na faixa de 20% ao ano, poucos poderão pagar...

Você tem razão, mas é importante destacar que essa aceleração foi mais forte em 2016 e 2017. No ano passado, foi menos. Reajustes elevados dos planos de saúde ficaram para trás. Hoje, há um ritmo menor de crescimento dos custos. Haverá uma reacomodação do uso e da utilização dos recursos. Nisso é no que eu acredito que vai ocorrer nos próximos anos.