“A carteirinha do plano de saúde virou o passaporte da doença”

“É insustentável. Pior do que eu não ter dinheiro é quem me paga não ter dinheiro”, diz Fernando Torelly, diretor financeiro do Hospital Sírio-Libanês
O Globo - 17/06/2018

O Globo destaca que que a maior fatia dos ganhos dos hospitais ainda é gerada pelos materiais e medicamentos consumidos. No paulistano Sírio-Libanês, por exemplo, esses itens geram 52% das receitas. No entanto, há uma percepção geral de que essa fórmula está se esgotando porque estimula a doença — não a saúde. Por essa lógica, quanto mais a situação do paciente se complica, melhor para o hospital e pior para o plano de saúde. “É insustentável. Pior do que eu não ter dinheiro é quem me paga não ter dinheiro”, diz Fernando Torelly, diretor financeiro do Hospital Sírio-Libanês.

Com clareza, Torelly descreve o atual cenário da saúde suplementar no Brasil: o médico está insatisfeito com os honorários que recebe das operadoras. O convênio está insatisfeito com a sinistralidade elevada. O empregador está insatisfeito porque paga demais pelo plano. O hospital está insatisfeito porque as tabelas pagas pelos planos de saúde são ruins. O cliente está insatisfeito porque há demora no pronto- socorro e ele não consegue ter um bom atendimento. “A carteirinha do plano de saúde virou o passaporte da doença”, diz Torelly.

Uma das formas de reduzir os desperdícios é questionar a pertinência do que é feito. Inspirado pelos centros de atenção primária de países como os do Reino Unido, o Sírio criou ambulatórios com médicos de família nas empresas. A primeira unidade foi instalada no Banco Votorantim, em São Paulo. Até o fim do ano, mais dez serão inauguradas. Como cerca de 80% dos casos atendidos por médicos de família são resolvidos, os custos para os empregadores diminuem.

“Somos um hospital que tem toda a sua receita vinda da doença. Agora estamos entrando em um modelo de negócios focado na saúde”, comenta Torelly.