Fundos de previdência devem crescer em 2018 com mais opções, mudanças na tributação e reforma

A procura por fundos mais diversificados, porém, não será imediata, prevê Fernanda. “Não vejo o cliente colocando 100% de sua previdência em ações logo de cara, imagino isso vai levar um tempo, mas ele vai buscar no início um pouco de diversificação, que é mais saudável do que ter 100% em renda fixa”, afirma. “Quanto mais o investidor puder fazer carteiras 80% renda fixa virarem 50% renda fixa, melhor para ele”, acredita.
Site Arena do Pavini - 06/12/2017

O próximo ano promete ser bastante favorável para a previdência privada aberta. A nova regulamentação, que permite a investidores qualificados o acesso a fundos de maior risco, entra em vigor dia 25 de dezembro, aumentando as opções e o atrativo dessas aplicações. Ao mesmo tempo, as mudanças na tributação dos fundos fechados, que passam a pagar o come-cotas, tornarão a previdência uma alternativa para quem quiser evitar a cobrança antecipada de imposto. Os fundos Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) continuarão livres do come-cotas.

Menor concentração

Juntamente com a queda dos juros da economia e a reforma da Previdência Social, essas mudanças devem favorecer o aumento da procura pela previdência aberta, que já começou neste ano. Até novembro, esses fundos captaram R$ 39, bilhões, ou 6,5% do patrimônio total, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Incentivarão também a desconcentração do setor e o aumento da participação das empresas independentes, acredita Marcelo Mello, vice-presidente da SulAmérica Investimentos. Hoje, dos R$ 760 bilhões investidos em previdência aberta, 97% estão em seguradoras ligadas a grandes bancos de varejo e apenas 3% em empresas como Porto Seguro, Icatu, Mongeral, Mapfre e a própria SulAmérica. “Esse nível de concentração não faz sentido e não é igual à do setor de fundos, no qual os grandes bancos têm 70% do patrimônio”, explica. Uma concentração que não é boa para o mercado e, principalmente, para o investidor, que tem menor concorrência e paga mais caro por produtos menos eficientes.

Mais vendidos que comprados

O motivo dessa concentração, acredita Mello, é o fato de que os fundos de previdência no Brasil ainda são mais “vendidos” do que “comprados”, ou seja, não é o investidor que procura pela aplicação, mas o gerente que a oferece. “Não há procura, mas isso tende a mudar pois, com a taxa de juros mais baixa, as pessoas vão fazer contas e ver quanto estão deixando na mesa”, diz, numa referência às taxas de carregamento e de administração mais altas cobradas nos fundos de previdência de varejo. “Uma coisa é cobrar 2% ao ano de taxa de administração com juros de 14% e outra é com juros de 7%”, diz. A performance também começará a ser mais importante no futuro, pois uma coisa é render 100% de um juro diário CDI de 14% ao ano e outra é render 100% de 7%. “O investidor vai querer entender melhor o rendimento, saber melhor o risco que está tomando, entender melhor o produto, e aí pode migrar para as independentes.”

Investidor qualificado terá mais opções

Um dos fatores que pode facilitar essa migração é a maior diversificação que os fundos de previdência poderão oferecer, e que incluirá mais ações, derivativos e investimentos no exterior. Serão estratégias importantes à medida que o juro nominal caia. Elas devem atrair principalmente investidores de mais alta renda, o que exigia que a Superintendência de Seguros Privados (Susep) regulamentasse a figura do investidor qualificado para previdência. Já havia o qualificado para investimentos em geral, como fundos ou ofertas públicas, criado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM),mas para previdência não. E a Susep decidiu em setembro adotar o mesmo critério: no mínimo R$ 1 milhão em investimentos financeiros e a assinatura de um termo admitindo que é qualificado para fazer a aplicação. As Resoluções do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) 348 e 349 demora 90 dias para entrar em vigor, ou seja, depois de 25 de dezembro.

Taxa de performance

Um dos pontos principais dessas mudanças será a chamada taxa de performance, uma espécie de prêmio que os gestores cobram quando superam as metas de rentabilidade. Assim, o gestor cobra pela administração do fundo uma taxa menor, 2% normalmente, e mais um percentual do que ultrapassar o previsto. É uma forma também de manter a taxa de administração principal mais baixa. Mas a performance só será permitida em fundos para investidores qualificados. E deverá ser um grande incentivo para a criação de fundos diferenciados, com nível de sofisticação maior, espera Mello.

Ainda faltam algumas circulares para terminar a regulamentação das novas normas, criadas originalmente em 2015 pela Resolução 4.444 do Conselho Monetário Nacional, e revisada pela 4.484. Nelas estão previstas a aplicação de até 10% dos recursos dos fundos de previdência privada no exterior, o que não era permitido, e o aumento de 49% para 70% da parcela máxima de ações em todos os fundos. Os para qualificados poderão ter até 100% em ações ou crédito. “Mas é mais um passo que a Susep dá a direção de a gente ter produtos de previdência mais modernos, alinhados com a indústria de fundos”, diz Mello.

A aplicação no exterior, assim como a fatia maior de ações, já era permitida desde setembro do ano passado, mas poucas empresas passaram a oferecer essa alternativa. A maioria esperava a definição do investidor qualificado, para  montar carteiras também para esse público. “O que vai poder ter agora é 100% de ações ou mesmo 100% em crédito, outra opção que tende a crescer”, explica Mello. “Não tem sentido a Previdência ser um produto de longo prazo que aplica 100% em renda fixa de curto prazo.”

Mudanças dos fundos fechados

Outro fator que deve fazer o segmento de previdência crescer são as mudanças anunciadas recentemente pelo governo para os fundos fechados, que passarão a pagar o imposto antecipado duas vezes por ano, o chamado come-cotas, afirma Mello. Com a mudança, a previdência privada se tornará a única alternativa de aplicação em fundo sem come-cotas. “Se isso se confirmar, vamos ter uma migração grande para os VGBL, e já estamos percebendo isso pois todo mundo que trabalha com fundos fechados, grandes alocadores, Family offices, estão nos procurando pois querem deixar um plano B pronto para, se o come-cotas vier, migrar para um VGBL”, diz. A medida provisória que inclui os fundos fechados no come-cotas está no Congresso para ser aprovada e valerá já para o ano que vem. “É mais um gatilho para o crescimento da previdência aberta.”

Previdência via corretoras

A desconcentração do setor de previdência também deve se dar pelo aumento da distribuição dos planos via plataformas eletrônicas, afirma Mello. Hoje, já é possível abrir um fundo de previdência totalmente pela internet, via plataformas de corretoras. “Basta entrar na corretora e escolher a seguradora e as condições”, diz. Segundo Mello, em 40 dias em uma plataforma de uma grande corretora independente, a SulAmérica conseguiu R$ 30 milhões em aplicações. “Se projetarmos isso para o ano todo é bastante coisa”, avalia.

Investidor precisa saber diversificar

As mudanças nas regras de aplicação da previdência aberta vão dar mais atualidade às aplicações, com opções que já existem em outros tipos de investimento, afirma Fernanda Pasquarelli, superintendente de Previdência e Investimentos da Porto Seguro. Mas será preciso também que o investidor assimile as mudanças. Hoje, muitos são superconservadores em previdência e agressivos em fundos abertos, quando o correto deveria ser o contrário, pois na previdência eles poderiam usar o tempo a favor para reverter eventuais perdas. “E o brasileiro coloca renda fixa na previdência, que é de longo prazo, e ações nas aplicações de curto prazo”, afirma.

O mercado caminha para um leque mais amplo de opções, que deve incentivar a diversificação dos investidores, como já ocorre em outros países, como Europa e Estados Unidos. “Nos Estados Unidos, os pais fazem a poupança para os filhos pequenos com ações”, afirma.

Lançamentos no começo do ano e suitability maior

Como a regra para qualificado passa a valer só no fim deste mês, Fernanda diz que o mercado se prepara para oferecer  fundos com 100% de ações e outros para qualificados já no começo do ano que vem. “Devemos começar 2018 já com novas opções de fundos e também com novos procedimentos para distribuição”, afirma Fernanda. Ela lembra que, como os fundos terão mais diversificação e risco, e novas tarifas, como a taxa de performance, será preciso explicar melhor para o investidor o que ele está escolhendo. “Será ainda mais importante colocar a previdência como uma aplicação de longo prazo e sujeita a oscilações, normais em qualquer mercado de renda variável, e isso exigirá ainda mais atenção ao suitability, ou seja, a adequação ao perfil do investidor, o que não era muito comum em previdência”, lembra.

Reforma da Previdência atrai atenção

As mudanças chegam também em um momento importante em que nunca se discutiu tanto sobre previdência por conta da questão da reforma do sistema público. “Existe preocupação maior, mais perguntas, e são cenários positivos daqui para frente”, explica. Um sinal dessa preocupação é o aumento da captação em previdência neste ano.

Mudança gradual

A procura por fundos mais diversificados, porém, não será imediata, prevê Fernanda. “Não vejo o cliente colocando 100% de sua previdência em ações logo de cara, imagino isso vai levar um tempo, mas ele vai buscar no início um pouco de diversificação, que é mais saudável do que ter 100% em renda fixa”, afirma. “Quanto mais o investidor puder fazer carteiras 80% renda fixa virarem 50% renda fixa, melhor para ele”, acredita.

Planejamento também precisa melhorar

Mas as pessoas também precisam se planejar melhor, definir seus objetivos e contar com consultorias especializadas para ajudar a organizar os investimentos, e não apenas aplicar em um fundo de previdência porque o gerente do banco sugeriu, afirma Fernanda. E isso deve exigir investimentos das seguradoras em educação financeira e no preparo dos canais de distribuição. Hoje, a falta de preparo dos investidores, que resgatam da previdência antes do prazo, leva o segmento da criar travas para evitar os saques. “As pessoas confundem previdência com fundos de investimento e sacam o dinheiro para trocar de carro ou viajar”, diz. “É um aprendizado que o brasileiro também precisa ter.”

A maior diversificação complementará estratégias como a dos fundos ciclo de vida, que vão reduzindo a parcela de risco com o passar do tempo automaticamente. “Com carteiras multifundos, podemos mesclar vários tipos de ativos e estratégias e ir mudando a alocação de acordo com o tempo”, explica Fernanda. “Vamos juntando todas essas coisas, os novos fundos, nova estratégias e serviços com aconselhamento e educação financeira para o investidor saber o que tem de fazer para atingir seus objetivos”.