Mercado procura maneiras de continuar a proteger circulação em rodovias

Além das estradas com condições inadequadas, o roubo de cargas acendeu o alerta vermelho para os transportadores e faz especialistas do mercado pensarem na possibilidade das seguradoras deixarem de atender o risco nas localidades mais preocupantes.
Revista Apólice - 11/10/2017

Para um País que depende majoritariamente de transporte rodoviário para fazer as cargas circularem, a condição desse modal não vai muito bem. Além das estradas com condições inadequadas, o roubo de cargas acendeu o alerta vermelho para os transportadores e faz especialistas do mercado pensarem na possibilidade das seguradoras deixarem de atender o risco nas localidades mais preocupantes.

Os prejuízos com esses sinistros registraram, nos últimos seis anos, custo de mais de R$ 6 bilhões. O País foi considerado o 8° lugar mais perigoso para essa modalidade pelo comitê do setor de cargas do Reino Unido. O Rio de Janeiro é o expoente dos riscos, com mais de 9 mil roubos de cargas registrados em 2016.

“Historicamente, o setor de logística sempre sofreu coma falta de investimentos no Brasil. Os investimentos sempre estiveram aquém das necessidades de um país de proporção continental”, atesta Adailton Dias, diretor de Transportes, Sinistros e Planejamento Estratégico da Sompo Seguros. Ele afirma que as organizações criminosas têm sido bem sucedidas em atingir um nível de sofisticação que supera os investimentos do Estado.

“Há uma soma de fatores que levam a esse cenário: crises institucionais, o foco em roubo de cargas – por conta da facilidade de distribuição dessas mercadorias – e a redução da fiscalização da Polícia Rodoviária Federal.

É um momento de tensão e as seguradoras estão muito mais críticas na aceitação do risco, mais criteriosas. Mesmo assim, há espaço para expansão”, explica Iramil Bueno de Araújo, gerente geral Comercial de Transportes e Gerenciamento de Riscos da Rodobens Corretora de Seguros.

Seguro e segurança

O mercado de seguros faz sua parte, oferecendo diversas coberturas e até participando de obrigatoriedades de proteção. Por isso, apesar dos cuidados redobrados, a carteira apresenta aumento de procura. Esse movimento era esperado, já que em época de ameaças as pessoas tendem mais a procurar mais proteção.

O seguro de Responsabilidade Civil do Transportador é de contratação obrigatória e há também o RC Facultativo, que, de acordo com Araújo, é bastante contratado. “Quanto às coberturas adicionais, depende muito do tipo da carga que é transportada. Quem entrega muito na região do Pantanal, contrata a cobertura de trajeto fluvial, por exemplo”, explica.

Há ainda o risco de avarias para quem transporta bebidas, móveis e coisas frágeis em geral; transporte de máquinas que necessitam de outro maquinário para fazer a carga e a descarga e içamento, entre tantas outras opções.

Ainda que existam essas modalidades obrigatórias, mesmo com tanta utilização, a contratação está aquém do que deveria. Um espaço para o mercado crescer, sem dúvidas, mas também a preocupação sobre a efetividade do avanço da cultura de seguro às pessoas responsáveis pela movimentação de boa parte da produção nacional.

Imprescindível, mas com muita necessidade de especialização, o produto precisa ter, não somente no segurador mas também no corretor, a figura de quem entende o que está fazendo. O transportador sabe na prática quais são as dificuldades, mas apenas o especialista pode dizer a ele, como, quando e onde contratar, esclarecendo os riscos e as leis que permeiam cada contratação.

Para o corretor de seguros que quiser especializar-se, esse sem dúvida, pode ser um bom caminho, porque há muito mais a ser avaliado e aprendido sobre a carteira. “Mesmo que o roubo seja um problema muito sério, também há ocorrências igualmente críticas como acidentes no trajeto, derramamento de carga, acidentes durante o embarque, atrasos na entrega, entrega de mercadorias com avarias e outros fatores externos que podem impactar economicamente a operação”, lembra Dias.

O maior engajamento dos transportadores que estão próximos aos corretores na hora de fechar a apólice é muito positivo. Eles entendem o que contratam e pensam mais em como mitigar seus riscos. “As circunstâncias levam o transportador para isso.

Ele sabe que, se houver muitos sinistros, pode ter dificuldade de renovar a apólice ou ter seu custo muito mais elevado. Ele precisa participar, pois não é um trabalho possível de ser feito isoladamente”, enfatiza Dias.

Só que na visão de Jamil Badreddini, diretor da Monte Líbano Corretora de Seguros, localizada em Goiânia, o processo de trazer o transportador para perto é um trabalho árduo para os corretores.“O empresariado goiano ainda não tema cultura de buscar por essa proteção nos processos dos embarcadores, pois grande parte de suas cargas são terceirizadas para as transportadoras. Cresce através dos corretores a divulgação do ramo de Transporte Nacional a esse público”, pondera.
Escoamento agropecuário

A região Sudeste é, certamente, muito afetada, mas outros locais também têm visto esse assustador crescimento. O Estado de Goiás, nacionalmente conhecido pelo transporte por contada movimentação agropecuária, é um exemplo desse aumento. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária, em 2016 o índice de roubos nas estradas cresceu 30% – em comparação com 2015.

“Estamos falando do estado que é o quarto produtor de grãos, com ampla área voltada às culturas de soja, sorgo, milho, cana-de-açúcar, leguminosas, entre outras. Goiás também é detentor do terceiro maior rebanho bovino do Brasil, além da sexta posição tanto na suinocultura quanto na avicultura. Números como esses não podem ser ignorados”, destaca o executivo da Sompo.

Qualquer tipo de carga é alvo. Eletroeletrônicos, pneus, produtos alimentícios, bebidas etc. “Dentro do ramo alimentício, o que chama atenção é que houve aumento na parte de laticínios, que antes não tinha uma incidência tão grande”, exemplifica Iramil Araújo.

Adaílton Dias completa a informação, afirmando que na região de Goiás, produtos do agronegócio também são um risco. “De grãos até cargas vivas (bovinos, suínos etc), que há um tempo era um tipo de carga menos visada”, explica.

No início de 2017, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, além da Polícia Militar de Goiás cumpriram 82 mandatos judiciais na ação intitulada Hicsos, elaborada para parar uma quadrilha de saqueadores responsável por, em média, 25 roubos por mês, causando um prejuízo estimado em R$ 30 milhões. A investigação leva a crer que empresários financiavam essas ações. Os produtos roubados eram, posteriormente, vendidos como se fossem mercadoria legal.

Badreddini atesta no cotidiano esse momento. “Tínhamos clientes que não haviam passado por sinistros e, de repente, chegaram até a ter quatro sinistros em uma mesma vigência. A recessão e os problemas de ordem política da nossa nação levaram ao caos, especialmente em 2016, afetando os resultados técnicos”, afirma.

O medo de roubos é tão alto que, em algumas estradas, muitos motoristas só trafegam em comboio, por ser uma iniciativa que coíbe a ação dessas quadrilhas. “Outro problema é a condição das estradas.

Há rodovias na região [Goiás] com falta de manutenção, esburacadas, com sinalização precária ou até mesmo sem pavimentação, intransitáveis. Isso aumenta substancialmente o risco de quebra de veículos e de acidentes como colisões e derramamento de cargas”, aponta Dias.

Gerenciamento de riscos. Esta é apalavra de ordem, nesse e em qualquer outro setor que esteja passando por momentos críticos. Ao contrário de áreas como a de Garantias de Obras, que ficou parada, os transportes não só crescem como têm despertado mais cuidados. “Estamos acreditando bastante no ramo. Com a procura maior, o que buscamos fazer como corretores é uma pré-seleção de alguns riscos, orientando o cliente, aliando as coisas para um resultado bom e de contínua perspectiva de crescimento”, diz Araújo.

A única desconfiança que fica está além do que qualquer player do mercado pode alcançar. O seguro existe para proteger a sociedade de eventualidades, mas quando isso se torna recorrente, fica insustentável para as companhias oferecer a proteção. “O roubo de carga é um mal que tem elevado substancialmente o ‘custo Brasil’.

O resultado, em última instância, é que a conta não fica apenas para a seguradora, para a transportadora ou para o dono da carga. Ele está gerando uma conta alta que é paga por toda a sociedade. É importante uma mobilização por parte dos agentes do setor”, afirma o executivo da Sompo.

O corretor da Monte Líbano acredita que uma medida que deve ser tomada é “dar mais liberdade para a Delegacia de Roubo de Cargas e sua política de atuação na região, para que possam agir e fechar o cerco das fronteiras do Estado.”

O engajamento parece existir também entre os corretores. “Não precisamos apenas de equipamentos de monitoramento, mas de toda a logística associada ao tema, vinda de todos os players. Aliado a isso, precisamos pressionar os órgãos públicos para melhorar a situação. Por mais que você tenha um aparato de seguro, de gerenciamento de riscos, logística, se o poder público não puder ser mais efetivo, as coisas ficarão cada vez mais difíceis”, finaliza Araújo.