Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

SEGUROS, CAUSA E EFEITO

A pandemia do coronavírus desestabilizou a economia mundial, jogando o planeta numa gangorra alucinada, onde as variáveis envolvidas impactaram de alguma forma negativa todas as nações. 02 de Abril de 2021

A pandemia do coronavírus desestabilizou a economia mundial, jogando o planeta numa gangorra alucinada, onde as variáveis envolvidas impactaram de alguma forma negativa todas as nações. Alguma sofreram mais, outras menos, mas nenhuma passou incólume pelo ano de 2020, e a possibilidade do repique em 2021 ainda não está descartada. É bom não esquecer que os prognósticos para o ano foram feitos no fim do ano passado, quando a segunda onda da pandemia ainda não estava corretamente dimensionada, até porque ainda estava incipiente, o que tornava extremamente difícil avaliar a extensão dos danos que ela viria a causar.

Ela ainda não foi debelada e já se fala numa terceira onda, que está às portas da Europa e que tem como dado novo as novas formas do vírus, decorrentes das mutações pelas quais passou, notadamente a cepa sul-africana e a cepa brasileira, ainda pouco conhecidas, apesar de já se saber que são mais contagiosas do que a cepa original.

Conversando com um grande médico paulista, fiquei sabendo que, além delas, já foram identificadas mais de oitocentas novas cepas. A maioria não traz qualquer novidade ou diferença significativa em relação ao coronavírus original, que se espalhou ao longo de 2020. Mas algumas sofreram mutações que podem causar danos sérios, tanto por serem mais contagiosas e mais letais, como imunes às vacinas existentes. Ainda é cedo para se saber a extensão dos danos que podem causar, mas, neste cenário, a realidade brasileira se torna uma ameaça para a humanidade.

Com a vacinação muito lenta e mais de duzentos milhões de habitantes, o país pode se transformar no berçário de novos vírus, que, pelo tamanho da população e demora na vacinação, podem sofrer mutações profundas e rapidamente contagiar um número maior de pessoas e assim se espalhar pelo resto do planeta, contaminando um número desconhecido de seres humanos, ainda que vacinados contra o coronavírus.

Apesar de um rol expressivo de países estar conseguindo controlar a pandemia em seus territórios, basicamente porque fecharam completamente as portas e estão vacinando suas populações em ritmo acelerado, o coronavírus continua uma ameaça à saúde das nações.

Mas, ainda que as contas fossem zeradas e a pandemia não gerasse novos prejuízos, os estragos causados até agora são suficientes para a contabilização de trilhões de dólares em perdas de todos os tipos e ações para proteger as respectivas sociedades, apoiando financeiramente pessoas e empresas abatidas pela pandemia e sem condições de tocar em frente.

Não há atividade socioeconômica que não tenha sido atingida. Para se ter uma noção do estrago, o Brasil, em 2020, teve uma recessão de mais de quatro por cento e ficou entre os países com melhor desempenho no ano.

Como não poderia deixar de ser, o setor de seguros, internacional e nacional, foi severamente afetado pela pandemia. Foi afetado pelas indenizações geradas, pelos seguros que não foram renovados e pelos novos negócios que deixaram de ser feitos.

Surpreendentemente, o setor, no Brasil, cresceu pouco mais de um por cento, o que pode ser considerado um resultado excepcional, diante de uma recessão de mais de quatro por cento. As razões para isso foram a queda da sinistralidade em praticamente todo os ramos, especialmente no primeiro semestre de 2020, a renovação de parte dos seguros contratados e a demanda por produtos como seguros de pessoas e planos de saúde privados, vistos como importantes para a proteção das famílias no curso da pandemia.

Com três mil mortos por dia podendo se transformar rapidamente em quatro mil, com o colapso do sistema de saúde e o ritmo lento da vacinação, o cenário do ano passado não deve se repetir. Ainda que o país milagrosamente cresça – o que é pouco provável –, a base de comparação será com 2020, ou seja, um número muito baixo.

Os balanços das seguradoras variaram de muito bons a muito ruins. E nenhum executivo com quem falei está esperando um ano fácil. Neste cenário, mais do que nunca, cautela e canja de galinha podem fazer a diferença.