Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

O QUE SERÁ QUE DEU ERRADO?

O artigo da semana passada foi um duro alerta sobre a situação das seguradoras no mundo. 09 de Agosto de 2019

O artigo da semana passada foi um duro alerta sobre a situação das seguradoras no mundo. Não foi um recado direto para ninguém, foi um grito de socorro para não permitirmos que um setor com a importância social e os pressupostos que o embasam acabe perdendo espaço num universo cada vez mais rápido e mais competitivo.

 A atividade seguradora, conceitualmente, é dos negócios mais nobres que existem. Sua razão de ser é a proteção da sociedade através da proteção do indivíduo, feita com a colaboração de todos para evitar que o dano individual se transforme numa perda coletiva.

Usando um exemplo poético, o negócio do seguro é a aplicação prática do poema “Por quem os sinos dobram”, do poeta britânico John Donne: “Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio.”

A razão de ser do seguro não é apenas tentar impedir que o torrão de terra seja arrancado, mas repor as perdas decorrentes do evento que o arrancou.

Não é verdade que o seguro apenas repõe as perdas decorrentes dos eventos cobertos. A função básica é esta, mas auxiliar com o aconselhamento ou a adoção de medidas que impeçam ou reduzam o risco também faz parte da atividade de uma seguradora e de um corretor de seguros.

É aí que o artigo da semana passada pega pesado. O setor está reagindo lentamente em relação às mudanças profundas que chacoalham o mundo desde a virada do século.

Ninguém discute que os grandes seguros empresariais continuam sendo importantes e até mesmo fundamentais para a continuidade dos negócios das grandes corporações, da mesma forma que os seguros para padarias ou açougues continuam sendo essenciais para o sono tranquilo do padeiro ou do açougueiro. É evidente que são e continuarão sendo. E as garantias clássicas oferecidas pelo setor de seguros continuam sendo eficientes.

Apenas, de 2000 para cá, surgiram outros riscos tão ou mais gravosos do que os riscos tradicionais de incêndio, roubo, danos elétricos, ou até mesmo mais sérios do que os riscos de responsabilidade civil importantes no século 20.

Hoje, os riscos decorrentes da operação de um negócio, seja ele qual for, cresceram exponencialmente. Um pequeno contador pode causar dano de monta para um cliente. Da mesma foram que uma grande corporação pode ter um problema sério em função de um produto defeituoso. São riscos conhecidos e segurados desde o século 20. Mas qual o potencial de dano que uma invasão do sistema de computadores do pequeno contador pode ter?  E qual o dano resultante das informações confidenciais dos clientes de um grande hospital caírem na internet? Qual o prejuízo causado pela perda de milhões de dados armazenados em um sistema que deixa de funcionar?

Da mesma foram, quais os danos possíveis de serem causados por eventos de origem natural? São seguros que existem faz tempo, mas será que as coberturas estão adequadas aos novos fenômenos, muito mais agressivos e que atingem áreas que até há pouco eram imunes a eles?

Não existe vácuo no espaço, não existe vácuo em política e não existe vácuo no mundo dos negócios. Se alguém não faz, aparece rapidamente outro que o faça. Este é o perigo.

Se as seguradoras não comparecem com sua capacidade de garantir o funcionamento da sociedade, a sociedade se encarrega de encontrar outros mecanismos capazes de suprir a omissão das seguradoras.

Isto já está acontecendo. Seja através de cooperativas, de auto-gestão, de compartilhamento de riscos, equipamentos e capacidades de produção, ou ainda da securitização dos riscos e outras medidas de caráter financeiro, capazes de reduzir a exposição dos segurados, o mundo empresarial vai se adaptando e adotando soluções heterodoxas, que poderiam ser evitadas se as seguradoras fossem, de forma geral, mais rápidas em suas respostas.

Várias companhias já acordaram e estão entrando de cabeça no desenvolvimento de soluções eficientes, por um preço palatável. É isso que a sociedade espera. Quem for atrás do que o mundo precisa tem tudo para se dar bem. Quem ficar esperando pode acabar fora do mercado.