Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

SERGIO TIM

Depois da morte de Osmar Bertacini, a morte de Sergio Tim praticamente coloca o ponto final numa geração de profissionais importantes para o setor de seguro ter chegado no atual estágio de desenvolvimento. 01 de Fevereiro de 2019

Depois da morte de Osmar Bertacini, a morte de Sergio Tim praticamente coloca o ponto final numa geração de profissionais importantes para o setor de seguro ter chegado no atual estágio de desenvolvimento.                

Foram homens que comandaram a atividade ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990 e que moldaram as companhias, dando-lhes a maturidade para romper antigas regras, que atrelavam o setor de seguros à vontade do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil).

Ressegurador monopolista e grande caixa da atividade, o IRB era draconiano em suas ações e na forma de se colocar diante do mercado. Não havia espaço para muitas discussões. Ou era como o IRB queria ou era como o IRB queria. O plano B mais arrojado se limitava a marcar uma reunião com o presidente do ressegurador para tentar convencê-lo a aceitar a posição da companhia e, eventualmente, reverter a decisão do IRB.

Era uma época em que as tarifas eram únicas e balizavam as taxas, os prêmios e as comissões de corretagem. Quem as baixava era o IRB e elas eram impositivas para o mercado. Quer dizer, as seguradoras tinham margem de manobra muito pequena, delimitadas pelas condições das tarifas.

Sergio Tim era diretor da Vera Cruz Seguradora, atual Mapfre, que na época pertencia ao Grupo Bunge.

À frente da Vera Cruz, Sergio Tim participou da montagem e desenvolvimento de uma das melhores companhias de seguros do Brasil. A Vera Cruz era inovadora, criativa e altamente competente, tanto que a previdência privada aberta brasileira teve nos produtos desenvolvidos pela Vera Cruz alguns dos primeiros paradigmas da atividade.

Ligada a um importante conglomerado empresarial, a especialidade da seguradora eram os riscos industriais, campo onde nadava de braçada, sendo, consequentemente, uma das maiores no ramo.

Trabalhando à frente da Vera Cruz, Sergio Tim cresceu e se consolidou como um dos mais respeitados profissionais do setor de seguros. Foi o responsável pela formação de dezenas de competentes profissionais que se espalharam pelo mercado, atuando com eficiência em diferentes setores e várias companhias, depois de uma proveitosa passagem pela Vera Cruz e pelas mãos de sua diretoria, onde Sergio Tim tinha lugar de destaque pelo conhecimento técnico, capacidade de articulação, tino comercial e profunda empatia com o mercado.

Sua morte leva um amigo querido. Durante muitos anos almoçávamos religiosamente antes de março para discutir o que o mercado prometia, quais as tendências, o que seria mais interessante fazer, quais os ramos com potencial, qual o grau de saúde do setor, que companhias poderiam enfrentar dificuldades, etc.

Na época da Vera Cruz, em cada almoço ele me dava uma gravata da companhia. Eram gravatas de extremo bom gosto e eu me orgulhava de usar gravatas de uma seguradora da qual eu não fazia parte, mas pela qual tinha enorme admiração.

Com a compra da Vera Cruz pela Mapfre, Sergio foi junto e teve importante papel na transferência da gestão da companhia para os espanhóis e, com o novo acionista, na sua posterior consolidação no mercado nacional.

Além de eficiente executivo, como Vice-Presidente da Mapfre, continuou sua saga de garimpeiro de novos talentos e vários profissionais que galgaram importantes cargos, não só na Mapfre, mas também em outras seguradoras, e devem muito de seu sucesso aos ensinamentos passados por Sergio Tim. 

Nos últimos tempos, Sergio estava afastado do mercado. A idade cobrou seu preço e com a diminuição da sua capacidade física ele preferiu se recolher. Antes disso já havia deixado seu cargo de alto executivo, mas ainda frequentava o Clube da Bolinha, do qual foi dos mais dinâmicos incentivadores. Depois deixou de ir aos jantares do Bolinha e poucas pessoas continuaram a ter notícias dele.

Sua morte leva um dos últimos representantes do ciclo romântico da atividade seguradora brasileira. Uma época completamente diferente, onde conhecimento técnico era tão ou mais importante do que capacidade financeira e bom relacionamento.

Amigo Tim, que a eternidade gaúcha o receba em seus pampas infinitos e que nos finais de tarde você tenha seu uísque e o papo dos amigos.