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Antonio Penteado Mendonça
Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.
A queda do faturamento

Em janeiro a atividade seguradora experimentou uma queda de 10% em seu faturamento de prêmios. É um número importante e que, colocado a seco, sem maiores explicações, pode levar a erro.

Tudo tem um porquê e, no caso, ele não é conseqüência de nenhuma ação desastrada de todo o sistema, nem reflete uma crise setorial de grandes proporções. Pelo contrário, esta queda aponta as conseqüências da crise que afeta o Brasil com severidade muito maior do que a que seria desejável pelo Governo.

A verdade é que a crise pegou pesado e seus reflexos já foram sentidos pela atividade seguradora, uma atividade de suporte, que segue na cola da economia como um todo, espelhando seu comportamento nos números referentes ao faturamento dos prêmios e dos sinistros pagos.  

Como só se vende seguros para riscos que necessitam proteção, todas as vezes que a economia encolhe, a venda de seguros reflete imediatamente este desempenho, pela razão óbvia de não haver novos riscos contra os quais a sociedade precisa se proteger.

Neste caso específico, há um dado que ainda não está completamente claro e que não deixa de ser preocupante. A venda de veículos novos continua acelerada, incentivada pela redução do IPI, medida adotada no começo do ano e que deveria refletir no faturamento das seguradoras, ainda que com impacto menor exatamente no mês de janeiro.

Mas o problema mais grave não é apenas a queda do faturamento. Soma-se a ela outro dado preocupante: a sinistralidade da carteira de seguros de automóveis subiu praticamente 5 pontos percentuais, estando acima de 70%, sem que houvesse a queda das despesas comerciais e administrativas, mas com o desempenho das bolsas e dos juros seguindo sua trajetória de baixa.

Na medida em que os seguros de automóveis respondem por quase 1/3 dos prêmios de seguros brasileiros, e em 2008 o desempenho da carteira não foi bom, estes indicadores devem ser vistos com preocupação, por indicarem uma piora num quadro que já não estava muito confortável.

Aqui cabem duas considerações: a primeira diz respeito à capacidade das seguradoras refazerem suas margens aumentado o preço de seus seguros em plena crise. Isto é praticamente impossível e fica claro, pelo comportamento da própria carteira de automóveis, que, apesar do crescimento acelerado da venda do bem, não acompanhou este desempenho.

E a segunda é que com a queda do faturamento, proporcionalmente, há uma elevação das despesas administrativas, que, no cenário atual, também não permitem muita margem para cortes.

Como não existe nenhuma luz no fim do túnel apontando para uma saída honrosa para o país se livrar da crise, mais do que nunca este ano precisa ser visto com muita atenção, para evitar situações complicadas pela queda do faturamento das seguradoras.

Evidentemente, cada companhia é uma empresa única, com características próprias, que podem deixá-la mais ou menos sujeita aos impactos do cenário. Também é evidente que nas crises existem grandes oportunidades para quem souber ler a dinâmica dos acontecimentos e aproveitar cada momento com o máximo de eficiência.

Assim, o cenário de queda do faturamento não pode ser generalizado como um quadro ruim para todo o mercado. O que não pode ser feito, isto sim, é desconsiderar os sinais e fingir que vai tudo bem e que apenas uma marolinha atinge o país. A onda é grande. Para enfrentá-la é preciso competência para surfar.

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