Recente notícia publicada em jornal de grande circulação dá conta de que o total da inadimplência no financiamento de automóveis passa dos 13 bilhões de reais, dos quais 4 bilhões já estão atrasados há mais de 90 dias.
É um dado preocupante, ainda mais se levarmos em conta que o Brasil ainda está no estágio 2 da atual crise internacional. Formada por uma crise de confiança na economia, ela pode ser dividida em três fases: na primeira, derrubou o crédito e quebrou bancos, seguradoras e fundos de investimentos; na segunda, atingiu a economia real, diminuindo o consumo, os investimentos e a capacidade de produção; e entra numa terceira, representada pela perda do emprego e pela quebras de empresas.
O Brasil sente a falta de crédito e a redução da capacidade de produção da economia real, mas ainda não foi atingido pelo desemprego e pela quebra de suas empresas. Este quadro só deve se completar no ano que vem.
E é aí que mora o perigo: ainda a salvo das conseqüências de uma forte onda de dispensas, a indústria automobilística já sente a queda das vendas. E agora passa a ter um problema novo, qual seja, a redução do crédito à disposição do consumidor, somada à alta dos juros praticados, em função da alta inadimplência nos financiamentos concedidos nos últimos tempos.
Como esta inadimplência é apenas a ponta de um iceberg, representado pela soma dos prazos dos financiamentos com a falta de capacidade de grande parte dos compradores honrarem seus compromissos, mesmo antes do terceiro momento da crise, que ainda nem chegou, é de se esperar que com o desemprego a inadimplência aumente, tornando-se um problema sério para as instituições comprometidas com o financiamento deste tipo de bem.
Em outras palavras, o crédito para financiamento de veículos, que já estava curto pela escassez de dinheiro no mercado, deve ficar mais difícil de ser conseguido, pelo aumento dos juros praticados e pela seletividade imposta pelas financeiras para a sua concessão.
As montadoras e os principais importadores sabem que o mar não está para peixe e que o cenário de demanda aquecida visto até recentemente, e sentido, antes de tudo, na volta do ágio praticado em determinados modelos, é coisa do passado, tanto que as primeiras já programam férias coletivas e os segundos fazem promoções para diminuir seus estoques.
Este quadro adverso impacta a atividade seguradora. O seguro de automóveis é o grande campeão da liquidez das companhias de seguros. Seguro de giro rápido, as entradas e saídas decorrentes das apólices de automóveis são responsáveis por parte significativa do dinheiro à vista das seguradoras.
Além disso, representam também o grande captador de recursos para investimento no mercado financeiro, tanto que uma parte do segmento está com seus preços baixos, em função do desenho até recentemente válido para a captação de recursos e sua aplicação em investimentos como bolsa e títulos de renda variável.
Com a crise, a situação muda de figura. A queda das vendas dos veículos novos atinge diretamente o crescimento da atividade seguradora; os preços baixos das apólices comprometem o resultado das companhias; o excesso de oferta deve reduzir o valor dos seminovos; e o desemprego impossibilitará o reajuste dos prêmios.
Neste cenário, 2009 será um ano complexo, no qual a sintonia fina das companhias, a parceria com bons corretores e a calma para esperar passar a tormenta terão reflexos diretos nos resultados de cada um dos envolvidos, sejam seguradores, canais de distribuição ou outros prestadores de serviços.